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Criança precisa apanhar?

Se você acha que criança precisa apanhar, conheça as pesquisas sobre o assunto. Saiba que existem caminhos para educar seus filhos de maneira positiva

Por Danielly Magioni

Se você acha que criança precisa apanhar, então leia este texto

“Eu apanhei quando criança e não morri!”. Essa é uma das frases mais ouvidas por quem se mostra a favor das palmadas. Mas, criança precisa apanhar? Antes de responder, leia este texto. Aqui, reunimos vários estudos sobre as consequências das agressões e, também, dicas de como agir.

Para começar, vale trazer uma reflexão de nossa especialista Isa Minatel. Ela é autora dos cursos Montessori em Casa (clique aqui) e Temperamentos da Criança ao Adulto (clique aqui), do MundoemCores.com

“Desde quando o objetivo da educação é fazer sobreviventes? O objetivo da educação é extrair o que a pessoa tem de melhor, é descobrir a sua missão de vida. Isso pra que ela venha aqui e faça com plenitude o que ela pode fazer. O que ela veio pra fazer”, afirma.

O que é considerado agressão física?

Sim, a gente sabe que educar não é nada fácil. Mas, é importante que você tenha em mente as consequências das agressões físicas para a vida do seu filho. Portanto, se você acha que criança precisa apanhar, repense.

Por exemplo, veja o que a Organização das Nações Unidas, a ONU, considera punição corporal ou física. “Qualquer punição em que a força física emitida é destinada a causar algum grau de dor ou desconforto”.

Além disso, considera formas não-físicas de punição, tais como: menosprezar, denegrir, ameaçar, assustar, humilhar ou ridicularizar a criança. Da mesma forma, o Comitê dos Direitos da Criança acredita que a punição corporal “é invariavelmente degradante”.

Já a Organização Mundial da Saúde (OMS) sugere que violência é o uso de força física ou poder, em ameaça ou na prática, contra si próprio, outra pessoa ou contra um grupo ou comunidade que resulte ou possa resultar em dano psicológico, morte, sofrimento, desenvolvimento prejudicado ou privação.

Também sugere que, mesmo que um ato violento não provoque ferimentos, deixa cicatrizes emocionais. E mais, vale lembrar que desde 2014 a Lei Menino Bernardo, conhecida como Lei da Palmada, está em vigor no Brasil.

Essa legislação ela altera o Estatuto da Criança e do Adolescente. E estabelece, portanto, o direito de essas pessoas serem educadas e cuidadas sem o uso de castigos físicos ou de tratamento cruel e degradante.

Criança precisa mesmo apanhar?

Diversos especialistas e pesquisas científicas vêm comprovando os efeitos negativos das agressões físicas. Por exemplo, há evidências que revelam a possibilidade de problemas comportamentais, psicossociais, emocionais e cognitivos nas crianças.

Entre essas consequências, segundo a Academia Americana de Pediatria estão: o aumento da probabilidade de lesão física; comportamentos agressivos e brigas na família; a formação de adultos desafiadores e agressivos; e o risco aumentado de transtornos mentais e problemas de cognição.  

Bater pode causar diversos traumas psíquicos

Para exemplificar, vamos citar uma revisão de estudos feita pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM). Nela, os pesquisadores identificaram que violência praticada contra crianças pode ocasionar diferentes traumas psíquicos.

Alguns deles são: comportamento agressivo; baixa autoestima; ansiedade; e condutas antissociais, como comportamento desafiador, agressividade e delinquência. Além disso, é bom que se diga, pode afetar o desempenho escolar e a socialização da criança.

Por outro lado, não é possível prever como exatamente a palmada vai refletir no futuro da vítima. Isso vai depender da frequência, da intensidade e da maneira como os pais e filhos encaram a situação. Também varia conforme a resiliência da criança, sua capacidade de superar obstáculos e se adaptar.

Contudo, é fato que qualquer violência, seja física ou psicológica, pode deixar marcas negativas no desenvolvimento emocional. Por exemplo, uma das pesquisas que comprova isso foi feita pelas Universidades de Michigan e Pittsburgh, nos Estados Unidos.

Esse estudo destaca, em resumo, que crianças que apanham e são vítimas de abusos verbais constantes na infância têm mais problemas de comportamento e depressão na adolescência. Isso quando comparadas às que são criadas sem o uso de nenhum tipo de violência.

Outro exemplo é o trabalho “Physical punishment of children: Lessons from 20 years of research”. Ele foi divulgado pela revista científica Canadian Medical Association Journal (CMAJ), em 2013. E revelou a ineficácia desse método principalmente pela possibilidade de causar depressão, ansiedade, melancolia e abusos de drogas.

Bater prejudica a saúde

Quer mais evidências? Um estudo feito pela Universidade de Manitoba, no Canadá, mostrou que as palmadas podem prejudicar a saúde do seu filho a longo prazo. Durante o trabalho, foram analisados dados de saúde pública do governo de mais de 34 mil adultos entre 2004 e 2005.

Em resumo, o resultado mostrou que as pessoas que sofreram algum tipo de agressão na infância tiveram mais chances de desenvolver obesidade (31% contra 26%); artrite (22,5% contra 20%); e doenças cardíacas (9% contra 7%).

Crianças que apanham têm mais problemas de comportamento

Da mesma forma, pesquisadores da Universidade do Texas, em parceria com a de Virgínia, nos Estados Unidos, avaliaram as consequências das palmadas. Como resultado, chegaram à conclusão de que crianças que apanharam dos pais aos 5 anos têm mais problemas de comportamento aos 6 e aos 8 anos.

Para isso, analisaram dados de cerca de 12 mil crianças que participaram de um estudo longitudinal sobre primeira infância. Nesse estudo, os pais foram perguntados se bateram em seus filhos na última semana e quantas vezes.

Também foram levados em consideração dados como idade, gênero, saúde e problemas de comportamento, status socioeconômico e tamanho da casa, assim como os conflitos familiares.

Em seguida, os pesquisadores analisaram as avaliações escolares dessas crianças aos 5, 6 e 8 anos. E seus professores responderam com que frequência os alunos brigavam, argumentavam, ficavam bravos e agiam impulsivamente.

Todo esse estudo revelou que as crianças que apanhavam em casa apresentaram piora no comportamento à medida que cresciam. Isso, é claro, quando comparadas às que não apanhavam.

Bater na criança libera cortisol

Você sabia que agressões físicas e verbais contra crianças provocam a liberação de cortisol e adrenalina no cérebro? O cortisol é um alerta do organismo disparado em resposta ao estresse e, portanto, faz com que aumente a pressão arterial e o açúcar no sangue. 

Além disso, ele propicia energia muscular por entender que o corpo deverá reagir. Ou seja, ao liberar cortisol, a criança não tem mais condições biológicas e neuroquímicas de ficar quieta.

Por outro lado, uma vez liberado, esse hormônio provoca uma pausa das funções anabólicas do corpo. Mas, o que isso quer dizer?

Que qualquer ação de recuperação, renovação e criação de tecidos fica em segundo plano para tratar dessa “emergência”. Como, por exemplo, o combate a uma doença ou ferida e até mesmo o processo de crescimento da criança. 

É por isso que se observam muitos casos de doenças, de dificuldades de aprendizado e desenvolvimento naquelas que vivem em ambientes de estresse tóxico. Outro fato importante é que o cortisol altera o sono e o humor, impactando, consequentemente, na rotina da criança.

Outras consequências

E essas não são as únicas consequências que a violência física e verbal pode trazer à vida do seu filho. Já se sabe que as palmadas podem levar a uma dificuldade em respeitar e receber ordens, uma vez que a criança sempre foi controlada pela força física.

Além disso, imagine o exemplo que você dá ao seu filho! Isso porque, ao bater, você mostra que perdeu o controle daquela situação, sendo a agressão a única maneira de manter a autoridade. Por exemplo, você sabia que os pais de crianças agressivas são caracterizados como altamente punitivos e críticos? 

Ainda há outro ponto negativo: a neurociência explica que crianças agredidas pelos pais naturalizam a violência. Porque, quando pequenos, nosso cérebro não consegue vincular nada de negativo à própria mãe ou ao pai. E, dessa forma, crescemos acreditando que os comportamentos violentos são aceitáveis.

Como fazer a criança se comportar melhor

Então, ainda acha que criança precisa apanhar? Pode parecer controverso, mas uma análise de mais de 150 estudos mostrou que demonstrar mais amor e tranquilizar a criança nos momentos de fúria funciona mais do que medidas corretivas.

Essa pesquisa envolveu mais de 15 mil famílias de 20 países e foi publicada na revista Child Development. Durante o trabalho, foram categorizadas as respostas dos pais de crianças entre 2 a 10 anos com comportamento explosivo.

Todas elas foram separadas em duas categorias: as que tinham como objetivo “melhorar” o relacionamento, sendo, portanto, mais sensíveis às necessidades da criança; e as que pretendiam “administrar” o comportamento, com disciplina para o mau comportamento e elogios para o bom.

Em resumo, foi avaliado como o caminho mais interessante mostrar ao seu filho que você o compreende, mas também orientar que as ações dele têm consequências.

Outros estudos revelam o mesmo: atitudes responsivas, voltadas para a criança e moderadamente controladas foram associadas positivamente à autoestima, aos resultados escolares, ao desenvolvimento cognitivo e à menor incidência de problemas de comportamento.

A importância do afeto

Prova de que criança não precisa apanhar foi um estudo recente, de janeiro de 2019, realizado pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.

Os cientistas chegaram à conclusão de que aqueles que cresceram em um ambiente com mais carinho e afeto eram menos propensos a quadros depressivos, drogas ilícitas e cigarro.

Para obter esse resultado, foram analisados 3.929 adultos, sendo 569 deles irmãos ou gêmeos, de 25 a 74 anos. Essas pessoas também participaram de uma pesquisa em que tinham de responder a perguntas como:

“Quanto tempo e atenção sua mãe e seu pai lhe davam quando você precisava?”, “Quanto sua mãe e seu pai entenderam seus problemas e preocupações?”, “Quanto sua mãe e seu pai lhe ensinaram sobre a vida?”.

Além disso, os pesquisadores perceberam que as pessoas que tiveram pais mais amorosos julgavam-se mais felizes, tinham relacionamentos mais positivos e autoaceitação. Isso prova a importância do carinho para formar adultos plenos.

O vínculo entre pais e filhos

Mais de 150 estudos científicos, leis e pesquisas revelam que, apesar de não serem fatores únicos, vínculos familiares e ambientes saudáveis são essenciais ainda na primeira infância – que vai até 6 anos – para desenvolver características cerebrais presentes em adultos autônomos e com mais qualidade de vida.

Bem antes da pesquisa de Harvard, uma outra coordenada pela Universidade Estadual de Michigan, nos Estados Unidos, revelou isso. Esse estudo sugere que crianças com mães amorosas são mais saudáveis e menos propensas a distúrbios psicológicos, como ansiedade, estresse e depressão. 

Outros benefícios do envolvimento afetivo para a criança estão relacionados ao seu desenvolvimento pró-social, seu autocontrole e sua internalização de padrões de comportamento.

Foi o que revelou um estudo da Universidade de Queensland, na Austrália. Ou seja, a qualidade das práticas parentais é importante para a socialização das crianças e as variáveis dessa prática estão diretamente relacionadas ao ajustamento dos filhos.

Disciplina Positiva é aliada

Para quem ainda acredita que criança precisa apanhar, é bom saber que existem alternativas. Sem, é claro, perder a autoridade de pai e mãe. Por exemplo, conceitos como a disciplina positiva passam longe da permissividade e permitem que se eduque sem punição, castigo ou recompensa. Sempre com base na firmeza e na gentileza.

“Controlar os filhos pelo medo ou pela dor só provoca vergonha e baixa autoestima. Em resumo, esse tipo de punição não traz nenhum ou muito pouco resultado prático”, explica Elisama Santos, autora do curso Educando com Disciplina Positiva (clique aqui). 

E completa: “Se a criança se joga no chão e o adulto dá uma palmada, ele chega naquele turbilhão emocional que ela está vivendo e acrescenta medo ou culpa. E aí essa criança vai crescer e vai virar eu, vai virar você. E a gente sente vergonha do que sente. A gente sente medo do que sente. A gente segue ensinando pra eles que os sentimentos deles são ruins.”

Por isso, Elisama defende que se separe a autoridade do autoritarismo. Ou seja, os pais podem manter a autoridade sem que, para isso, precisem ser tiranos, autoritários com os seus filhos. Sem que percam o vínculo, que é tão fundamental, como vimos.

Existem várias formas de lidar com as situações, como as crises de raiva da sua criança, sem que ela precise apanhar. Por exemplo, existem recursos considerados nobres. Demos algumas ideias no texto “Como lidar com a raiva da criança“.

Outros caminhos

Além da disciplina positiva, estudar a obra de Maria Montessori o ajudará a entender a sua criança e a saber como lidar com as situações (assista ao curso Montessori em Casa). Da mesma forma vão contribuir os cursos O Desenvolvimento Cerebral da Criança (clique aqui) e O Verdadeiro Poder dos Pais (clique aqui).

Outro que vai ajudar, e muito, não apenas na sua relação com seu filho, mas em todas as suas relações é o curso Temperamentos da Criança ao Adulto (clique aqui), com a Isa Minatel. Enfim, há diversas informações e recursos disponíveis para fugir das palmadas e outras agressões. Vamos juntos? 

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