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Como lidar com a raiva da criança?

Por Danielly Magioni

Como você lida com a raiva da sua criança? E com a sua? Você acha que essa é uma emoção negativa, que não devemos sentir? Se você pensa dessa maneira, é melhor rever os seus conceitos. Em vez de invalidar o sentimento, que tal aprender a administrá-lo e ajudar o seu filho a tirar proveito disso?

Para início de conversa, precisamos desmistificar a raiva. Como explica a nossa especialista Isa Minatel, autora dos cursos online Temperamentos da Criança ao Adulto (clique aqui), do MundoemCores.com, a raiva é uma emoção que traz ação, movimento e, quando bem direcionada, leva a pessoa a realizar.

“A raiva é maravilhosa porque traz energia para se movimentar, agir e resolver. Então, raiva bem conduzida é igual a resultado. Raiva mal conduzida é igual a destruição, autodestruição, destruição do ambiente ou destruição de outras pessoas. Quem tem o temperamento da raiva normalmente é aquele que muda a vida, que sai de uma situação ruim, que transforma o ambiente e que realiza a sua própria missão. Por isso, o objetivo não deve ser nunca eliminar a raiva, mas conduzí-la”, orienta.

De onde vem a raiva e o que ela provoca?

A raiva funciona como um mecanismo de autodefesa que é disparado ao detectar o que acredita ser um perigo. No cérebro, existe a amígdala e ela faz parte do sistema límbico que, entre outras coisas, regula o comportamento agressivo e as respostas emocionais de cada pessoa. Quando recebemos um gatilho para a raiva – que pode ser uma frustração, uma rejeição, por exemplo – essa amígdala recebe estímulos.

Para resumir a história, há um caminho que se percorre a partir da amígdala até a ativação das glândulas supra-renais, que passam a secretar os chamados hormônios do estresse, como o cortisol, a adrenalina e a noradrenalina. O que ocorre a seguir é que o cortisol, por exemplo, diminui a serotonina, que é o hormônio que nos faz sentir felizes. E tudo isso pode nos levar a sentir raiva, a aumentar a agressividade e levar à depressão.

Um estudo da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, descobriu que quem tem a tendência natural a se comportar agressivamente tem a comunicação ainda mais fraca entre as duas partes do cérebro após a redução do neurotransmissor. Isso quer dizer que se torna mais difícil segurar a raiva primitiva gerada pelas amígdalas.

Neurocientistas já descobriram que, quando sentimos raiva, a frequência cardíaca aumenta, a respiração se acelera, o fluxo sanguíneo dispara, a musculatura se enrijece e, como dissemos acima, os níveis de adrenalina, noradrenalina e cortisol se elevam. Com isso, ocorre uma diminuição na capacidade de processar uma informação interna e externa, podendo levar à agressividade verbal ou física. Daí porque é preciso esperar os ânimos se acalmarem para iniciar uma conversa.

Pesquisadores do Centro de Controle e Prevenção de Doenças de Atlanta, nos Estados Unidos, indicam que quem sente raiva recorrente possui maior risco de sofrer um acidente vascular cerebral ou derrame. Eles chegaram a esse resultado após estudar cerca de 14 mil pessoas. Além disso, concluíram que os mais irritados têm um sistema imunológico mais frágil, sendo mais propensos a doenças infecciosas. E, ainda, foram encontradas evidências de que a liberação de hormônios como a adrenalina favorece a formação de coágulos sanguíneos e enfraquece as paredes dos vasos.

Outro estudo, da Escola de Medicina John Hopkins, acompanhou 1,1 mil alunos durante 16 anos e concluiu que os que se irritavam mais facilmente tinham quase três vezes mais riscos de sofrer um ataque cardíaco. Também já se sabe que a raiva aumenta o nível de gordura no corpo e faz com que a sensibilidade à dor física aumente.

Por que as crianças sentem mais raiva?

Crianças e adolescentes, geralmente, têm mais dificuldade de controlar a raiva e perdem o controle mais facilmente. Isso porque os pequenos nascem com o neocórtex ainda em formação. Essa é a área do cérebro responsável pela reflexão, pelo pensamento e pela solução de problemas. Ocorre que o neocórtex pode entrar em uma espécie de atrito durante o seu desenvolvimento e isso resulta em episódios de agressividade infantil, seguidos de choro e raiva.

“A grosso modo, nosso cérebro é dividido entre o cérebro primitivo (reptiliano) e o cérebro mamífero. O primeiro vem de fábrica e nele moram nossas reações instintivas, como fome e sono. O segundo se desenvolve ao longo dos anos. Nele, formaremos nossas capacidades criativas, intelectuais etc. Seu filho pequeno não tem ele pronto”, alerta Elisama Santos, autora do curso online Educando com Disciplina Positiva (clique aqui), do MundoemCores.com.

Também já vimos, lá no comecinho do texto, que o temperamento predominante da criança influencia. Aristóteles e Hipócrates estabeleceram que existem quatro tipos de temperamentos: colérico, sanguíneo, melancólico e fleumático. Nossa especialista Isa Minatel, após um estudo com diversas famílias, costuma dizer que os dois primeiros são os da raiva, ou seja, quando algo não sai como esperado eles sentem, em primeiro lugar, raiva.

“São essas crianças que possuem uma vontade mais forte e comumente recorrem à birra, buscando conseguir o que querem ou resistindo a fazer o que não querem. A birra é uma resposta emocional intensa à frustração e também uma manifestação forte da própria vontade, o que em essência não é ruim. Quando se comete o equívoco de, em vez de acabar com a birra, acabar com a vontade da pessoa, o resultado é danoso: pessoas sem vontade, sem interesse, sem ânimo, sem vida!”, alerta Isa.

Como ajudar a criança com raiva?

Já vimos o que acontece com o nosso corpo durante um ataque de raiva. Por isso, a primeira dica que damos é não tentar conversar no momento de descontrole. “Nessa hora, o cérebro primitivo assume o comando. Por isso, não adianta argumentar, conversar e explicar. Nesse instante, a criança não é capaz de entender. O melhor a fazer é acalmar o seu filho e ajudá-lo a regular as próprias emoções”, indica Elisama Santos.

Veja só algumas dicas para ajudar a criança a lidar com a raiva:

Nomear o sentimento. “Filho, isso que você está sentindo é raiva!”, e depois dar o direcionamento. É importante ajudar a criança a entender o que está sentindo para que ela possa se autorregular quando isso ocorrer novamente. Ou seja, “quando eu sentir o coração bater mais forte, a respiração ficar mais rápida, devo fazer isso”.

Respiração. Nossa especialista Carol Winner, autora dos cursos O Verdadeiro Poder dos Pais (clique aqui) e O Desenvolvimento Cerebral da Criança (clique aqui), do MundoemCores.com, destaca que ensinar a criança a respirar fundo alivia a ansiedade e o estresse, estimula a produção do GABA, que é um calmante natural, e ajuda no controle dos impulsos. “‘Já cheirou a florzinha e soprou a velinha hoje?’. Essa é uma técnica da yoga que utilizamos em nossa casa”, conta.

Afastamento. Oriente a criança a se afastar antes que se descontrole. Uma boa dica é reunir toda a família e estabelecer um cantinho na casa para que todos possam ir se acalmar quando sentirem raiva. Vocês podem colocar lá os objetos que ajudarão nesse processo, como almofada, livros, bichos de estimação. E, importante: o adulto pode sugerir que a criança vá para esse espaço, jamais obrigar.

Desenhar. Elisama Santos dá a dica de propor que a criança desenhe. “Filho, estou vendo que você está com muita raiva, que tal fazer um desenho para me mostrar isso?”.

Bater em uma almofada. Em casa, vale ensinar para a sua criança uma maneira de extravasar a raiva que está sentindo. Bater em uma almofada ou em um boneco inflável, por exemplo, ajuda a aliviar.

Contar até 10. Ensine seu filho a contar até 10, 15, 20, se necessário, antes de reagir com raiva a uma situação.

Bater palmas. Outra maneira de extravasar a raiva é bater palmas.

Dar 10 pulinhos. Essa também é uma dica que vai ajudar a fazer com que a raiva vá embora mais rapidamente.

Dançar. “Estou vendo que está com raiva. Bater machuca. Quer dançar?”, propõe Elisama Santos.

Rugir como um leão. “Você está com raiva? Bater machuca. Que tal rugir como um leão?”, sugere também.

Tomar um copo de água. Essa é uma dica que ajuda muito a regular as emoções.

Dê o exemplo. “Não adianta querer que a criança respire fundo e converse enquanto você esbraveja diariamente. Não adianta esperar que a criança não bata, quando você bate. Não adianta esperar que faça o que você se mostra claramente incapaz de fazer. É necessário que haja coerência entre o que cobramos e o que fazemos”, alerta Elisama.

Passada a raiva, converse

Agora que você já sabe como ajudar a sua criança a controlar/lidar com a própria raiva e ela conseguiu se acalmar, é chegada a hora da conversa. E aguardar esse momento passar é uma dica que vale até mesmo para os adultos porque, como vimos no começo do texto, a raiva nos bloqueia o entendimento.

“A melhor hora de ensinar é depois que as emoções estão reguladas. É quando estamos, eles e nós, mais calmos. A melhor hora pra conversar é quando as emoções permitirem.

Até lá, a gente acolhe. Se acolhe. Reconhece as impossibilidades do momento. Respira e ajuda a respirar. Dá um tempo e percebe o tempo. Assim, as coisas fluem melhor, pode ter certeza”, explica Elisama Santos.

E Isa Minatel complementa: “Muitas vezes achamos que não devemos voltar ao assunto com a criança quando o ataque de raiva/comportamento inadequado já passou. Mas é o contrário! Não se corrige os pequenos nos momentos de raiva. Quando ela passa, essa é a hora do aprendizado, de conversar sobre o que ocorreu e de dar recursos para seu filho, para que ele não aja daquela maneira novamente”.

E por falar em recursos, é muito importante que você os conheça. Quando temos ferramentas para agir, temos diversas possibilidades de intervenção que passam longe dos castigos e punições. Nos cursos do MundoemCores.com, você aprende mais sobre isso.

Uma boa dica para começar a conversa com o seu filho é se conectar a ele: “Eu também fico chateado quando isso acontece. Agora, a gente já viu que aquela maneira de agir não foi legal. Você precisa observar quando a raiva vem chegando e agir para que ela não tome conta porque existem consequências, não é mesmo? Você pode sair de perto, respirar fundo…”.

Ah, e se a sua criança for pequena, não se preocupe, isso também costuma funcionar. Basta que você fale menos e utilize mais expressões não verbais enquanto fala. E, se ela tem menos de 2 anos, é mais eficaz mudar o foco de atenção da criança. Mas, fique atento, independente da idade, evite os sermões!

Para finalizar, não se esqueça de valorizar o seu filho quando ele conseguir se controlar. Reforce sempre o comportamento dizendo coisas boas sobre ele. E procure entender quais são os gatilhos que o fazem se descontrolar. Normalmente, a raiva acontece quando nos sentimos frustrados, desapontados, rejeitados, julgados, com medo, cansados ou com fome, por exemplo.

“Sentir raiva, tristeza, angústia e frustração faz parte da vida. Não dá pra fugir do que nos faz humanos. Quanto mais aceitamos a nossa humanidade, mais capazes nos tornamos de lidar com o que dói, de integrar luz e sombra. De vivermos em paz com tudo que existe em nós. Quer ter uma relação melhor com os filhos? Cuide da sua relação com o seu sentir. Isso faz toda a diferença na vida!”, propõe Elisama Santos.

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