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Como lidar com a criança que mente?

Como você lida com a sua criança quando ela conta uma mentira? Sabia que existem vários tipos de mentira e várias razões para seu filho mentir? E que se você agir com rigidez poderá torná-lo, de fato, um mentiroso?

Por Danielly Magioni

Pense na seguinte situação: sua criança quebra um vaso de flores, você pergunta e ela diz que não foi ela. Qual é a sua reação? Muitos vão repreender fortemente o filho tanto pela perda do objeto, quanto pela mentira. Mas, você já parou para avaliar que existem tipos de mentira? Ou, melhor, que a mentira varia de acordo com a idade? E que a sua forma de lidar com isso pode fazer com que seu filho se torne um mentiroso de fato?

Entre adultos, algumas mentiras são utilizadas nas relações sociais para manter uma boa convivência, evitar conflitos desnecessários ou para demonstrar respeito e empatia, por exemplo. No entanto, a mentira passa a ser um grande problema quando traz, como consequência, o prejuízo a outras pessoas, tornando-se, assim, uma questão moral.

Em geral, as crianças começam a mentir por volta dos 2 anos de idade e o fazem pelos seguintes motivos: conquistar o que desejam; impressionar alguém; não decepcionar o adulto de referência; fugir das responsabilidades; evitar punições; chamar a atenção dos pais; esconder uma angústia ou frustração; ou porque confundem fantasia e realidade; e, ainda, porque seguem o comportamento do adulto.

O ato de mentir requer um trabalho cognitivo complexo envolvendo manipulação da informação, percepção, linguagem e controle inibitório. Por esse motivo, a princípio não há com o que se preocupar se a sua criança está mentindo, pois isso pode ser um bom sinal de desenvolvimento cognitivo e de aprendizagem das regras sociais. É claro que cabe ao adulto orientá-la sobre o certo e o errado. Agora, se esse é um comportamento frequente, exagerado e que traz prejuízos, aí sim é motivo de preocupação.

Pesquisa sobre a mentira

Como tudo o que é aprendido na infância, a criança também pode aprender a mentir se cada vez que ela o fizer tiver como consequência um resultado favorável. Ou seja, seu filho aprende que mentindo obtém o que quer e evita o que não quer. Em contrapartida, é preciso cautela ao lidar com as mentiras, pois a maneira como você reage pode influenciar na sua relação com a criança e também no tipo de pessoa que ela vai se tornar.

Foi o que revelou, por exemplo, um estudo realizado por Victoria Talwar, renomada especialista em desenvolvimento social-cognitivo infantil da Universidade McGrill, no Canadá. O resultado mostrou que as crianças educadas de forma rígida, seja em casa ou na escola, tendem a se transformar em excelentes mentirosos.

Para a pesquisa, um teste foi realizado em escolas da África. Os alunos foram convidados a adivinhar os sons que vinham por trás de uma cortina e, em determinado momento, o adulto que os supervisionava saiu da sala. Quando retornou, ele perguntou à criança se ela havia espiado qual era a sequência de objetos.

Após analisar os resultados, os pesquisadores concluíram que as crianças que vivem em ambiente severo mostraram-se extremamente rápidas e eficazes em contar uma farsa. E, ao contrário, o “índice de mentira” daqueles criados em ambientes relaxados foi considerado dentro dos padrões. Victória explica que, temendo a punição, as crianças aprendem a mentir de forma natural.

A mentira de acordo com a faixa etária

O estudo realizado no Canadá utilizou como modelo o fato de que as crianças de cerca de 2 anos dizem “mentiras primárias”, criadas para esconder ações erradas, sem levar em consideração as punições que podem acarretar. Por volta dos 4 anos, aparecem as “mentiras secundárias”, que são mais plausíveis e têm o propósito de esconder atitudes e comportamentos. Já as “mentiras terciárias” surgem entre 7 e 8 anos e são aquelas que costumam se fundir ao que é real com o objetivo de criar histórias aceitáveis.

Por volta dos 2 anos, a criança começa a confundir a realidade com a fantasia e os adultos atribuem isso a uma mentira. Porém, não é bem assim. Nessa idade e até mais ou menos os 6 anos, ela muitas vezes não tem ideia de que o que está dizendo não corresponde à realidade. Voltando ao exemplo do vaso quebrado, é provável que ela negue o que fez simplesmente para não magoar a mãe, a quem tanto ama, e também porque queria que aquilo não tivesse realmente acontecido.

“Lá pelos 4 anos, os pequenos começam a perceber que a sua mente é capaz de criar histórias, tipo um filme. Nessa idade, a maior parte das mentiras – se é que podem ser chamadas assim – são uma confusão entre a imaginação e a realidade. Ela não inventou que alguém pegou o brinquedo porque está tramando um plano maligno”, explica Elisama Santos, autora do curso Educando com Disciplina Positiva, do MundoemCores.com.

Por volta dos 6 anos, a criança começa a ter a noção do certo e do errado e, muitas vezes, mente para fugir de um castigo ou outra punição mais severa. Mas, é provável que até os 8 anos, mais ou menos, ela não minta da forma como o adulto faz, mesmo porque ainda não enxerga problema em dizer que algo não é real. É comum que invente situações ou aumente fatos para satisfazer as próprias vontades e manter uma boa imagem de si mesma.

Contudo, ainda que a criança partir dos 8 anos comece a entender o que é mentira, ela ainda pode se atrapalhar. Portanto, não estranhe se seu filho o chamar de mentiroso porque você combinou de jogar bola, mas teve de cancelar o compromisso em função do mau tempo. É também por volta dessa idade que ele começará a fazer experiências morais e contará algumas mentiras para testar os pais. Com isso, tenha em mente que a compreensão das consequências de mentir pode levar mais tempo.

O que NÃO fazer com a criança que mente

Antes de mais nada, mantenha a calma! Como já vimos no início do texto, brigar/punir a criança só vai reforçar o comportamento, podendo fazer com que ela se torne uma mentirosa frequente para evitar o castigo; com que perca a confiança no adulto para dizer a verdade da próxima vez; e, além disso, pode ser que ela chegue à conclusão de que vale a pena mentir, contanto que arque com as consequências.

Também evite acusações, rótulos de “mentiroso” e não faça perguntas óbvias, armadilhas do tipo “Você quebrou o vaso?” ou “Você mexeu nas minhas coisas?”. Não dê à situação o peso que ela não precisa ter. Uma mentira contada por uma criança é bem diferente daquela dita por um adulto. Se você sabe a verdade, por que fazer perguntas óbvias? Isso pode forçar a criança a mentir apenas para não lhe magoar.

“Punições, além de não desenvolverem a autorresponsabilidade, minam a relação. Acusar a criança de estar mentindo apenas faz com que ela se agarre à mentira e a defenda com todas as suas forças por medo de ser desmascarada. Você tem sido porta aberta para a escuta? Contaria seus segredos a alguém que reage como você costuma reagir às atitudes dos seus filhos? Já pensou que a criança não fala a verdade por medo de desapontar, por vergonha?”, questiona Elisama Santos.

E acrescenta: “Já pensou que seu filho às vezes quer muito cumprir o acordo, mas a vontade de se segurar não é o suficiente para evitar a atitude? Que ele ainda não tem capacidade psicológica, nem experiência de vida para entender as consequências da mentira? Intimidade é porta que se abre por dentro. E, quanto mais a gente ameaça, grita e perde as estribeiras, mais voltinhas eles dão na chave, trancando a porta. Um dia, eles sairão das nossas casas. Que relação estamos construindo?”.

Dizer para a criança que o nariz vai crescer a estimula a contar mentiras

Como agir com a criança que mente

Agora que você já sabe o que NÃO fazer quando a sua criança mentir, como agir, então? Primeiro, é preciso compreender a fase pela qual seu filho está passando e, principalmente, entender o que está por trás desse comportamento. Ele está mentindo de fato ou é apenas a criatividade, a imaginação trabalhando? É importante distinguir a fantasia da realidade.

“Quando uma criança de 3 anos conta uma mentira, por exemplo, devemos apenas orientá-la, pois ela ainda não sabe sobre conceitos abstratos de mentira e verdade, e não podemos exigir que saiba. Nesse caso, devemos pensar no que aquela situação representa para a criança”, explica Isa Minatel, autora dos cursos Montessori em Casa e Temperamentos da Criança ao Adulto, do MundoemCores.com.

Descreva o que aconteceu. Uma boa maneira de intervir quando a criança conta uma mentira é imaginar o que ocorreu, descrever e pedir que ela esclareça, sem julgamentos no tom de voz. “Acho que você veio correndo, tropeçou no vaso e quebrou. Foi assim? Me conta o que aconteceu para eu entender melhor?”. “Conecte-se com seu filho, perceba o que ele está sentindo e imagine o que sentiu ao mentir. Ao notar que é compreendida, a criança se sente à vontade para falar a verdade”, sugere Elisama Santos.

Foque na solução do problema e no aprendizado. Em vez de procurar culpados, prefira ensinar para a criança como ela pode resolver o problema, como pode reparar o erro e o que aprendeu com isso. “O que você acha que podemos fazer para não quebrar outra coisa?” ou “O que você poderia ter feito em vez disso?”.

Dê o exemplo. Não adianta querer que a sua criança não conte mentiras se você as conta. Se você diz o já conhecido “Na volta a gente compra”, e não compra. Se você diz a ela que o nariz vai crescer, quando, na verdade, sabe que não cresce. Ou quando manda dizer que não está em casa quando alguém telefona. Dessa forma, seu filho percebe que algumas mentiras não sofrem retaliações, que nem todas são descobertas e que o seu adulto de referência mente. Então, tudo bem mentir também.

Respeite a privacidade. Muitas vezes, as crianças são acusadas de mentir quando, simplesmente, não querem contar sobre algo particular. Se seu filho não quer dizer sobre a briga que teve com o amigo, por exemplo, respeite a sua intimidade. Ele pode ter segredos e cabe a você se mostrar disponível para quando ele estiver pronto para falar.

Dê atenção à sua criança. Quando ela quiser contar algo, esteja presente inteiramente. Separe um momento do dia para ficar com seu filho sem interferências externas, como do telefone celular. Assim, ele não precisará contar mentiras para ganhar a sua atenção e isso trará muitos benefícios para a relação de vocês.

Conte uma história. Contar uma história sobre um urso que mentia, relatando o que aconteceu com ele por causa disso, é um excelente recurso.

Converse sobre as consequências. Explique para a criança sobre a importância de dizer a verdade. Diga também que as pessoas não confiam mais em quem mente. E que, além disso, a mentira nos impede de ajudá-la da melhor maneira.

Por fim, lembre-se de que a mentira infantil é parte do aprendizado social e da construção dos valores da criança. Por isso, quanto mais conectado o adulto estiver a ela, mais rapidamente ela assimilará.

“Não se força uma relação de confiança. Ela é construída com base no respeito mútuo. Podemos ensinar sobre consequências e responsabilidade sem que para isso a criança seja ferida em sua autoestima e poder pessoal. Gentileza e firmeza podem, e devem, andar juntas”, completa Elisama Santos.

Quer aprender mais sobre o universo infantil e como lidar da melhor maneira com a sua criança nas diversas situações do dia a dia? Assista aos cursos do MundoemCores.com, como o Educando com Disciplina Positiva (https://mundoemcores.com/curso/educando-com-disciplina-positiva/) e o Montessori em Casa (https://mundoemcores.com/curso/montessori-em-casa/).

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